Sons da Liberdade

* Por Vera Golik

Era final de ano. Eu nunca tinha entrado num presídio. Chegando na porta, senti calafrios… não sabia o que iria encontrar ali, no famoso Carandiru, hoje Presídio Feminino de São Paulo. Era uma ocasião especial: fomos chegando – eu, meu marido, alguns amigos e outros convidados – naquele local pouco provável para assistir a uma apresentação musical. Tudo ali dava arrepios. Enormes portas de ferro, grades… Passamos pela revista, um por um. Já lá dentro comecei a ouvir ao longe vozes afinadas, fortes, poderosas. Como mágica, todo o desconforto inicial foi se transformando em encantamento. Meus olhos se encheram de lágrimas e dali em diante fui tomada pela emoção. Abri meus ouvidos e meu coração para um verdadeiro espetáculo de humanismo. Nem os bancos duros da plateia ou o palco e o cenário improvisados tiravam minha atenção daquele show de dignidade da vida…

Fui até lá para assistir a avant première, a primeira apresentação, do Projeto Voz Própria. A querida amiga, a musicista, professora de canto coral e psicanalista Carmina Juarez estava no comando projeto. Com toda sua sensibilidade e sabedoria, Carmina conseguiu unir não apenas vozes, mas vidas que, por meio da voz, ganharam a liberdade de serem e mostrarem quem realmente eram e que, apesar de todas as vicissitudes que enfrentaram, mostraram que cada uma ali – com sua história, sua emoção, sua força e coragem – tinha Voz Própria.

Acompanhe a seguir a entrevista que Carmina Juarez gentilmente deu para o nosso site Vera Bellezza e conheça mais sobre essa linda história.

Projeto Voz Própria

Carmina Juarez – Coordenadora
Lu Gallo – Produtora
Debora Steinberg e Emir Tomazelli – Psicanalistas Supervisores

Nesta entrevista, eu, Vera Golik, representando a equipe do Site VERA BELLEZZA tive o prazer de conversar com a professora de canto e psicanalista Carmina Juarez. Você vai saber mais sobre a trajetória pessoal e profissional de Carmina e, em especial, sobre os Projetos Voz Própria e Mulheres Livres. Projetos que tem o “humanismo” como sua espinha dorsal e que estão oferecendo nova chance para mulheres fortes que ultrapassaram duros obstáculos para imprimirem suas vozes no mundo.

A trajetória pessoal, do canto para a psicanálise

Vera Golik / VGCarmina, conte para nós como foi a sua aproximação com o mundo das artes e como aconteceu sua trajetória que acabou te levando ao trabalho que você faz hoje?
Carmina Juarez / CJ – Eu nasci em uma família de artistas. A aproximação, então, aconteceu meio que por “osmose”. Sempre me fez muito bem dançar, cantar, ir ao cinema, enfim, de alguma forma estar próxima desse mundo das artes.

VG – E como foi migrar do canto para a psicanálise, sendo que você nunca abandonou a música? Como esses dois mundos se encontraram?
CJ – Antes de tudo, a cantora é um ser humano. Como ser humano que sou, anos atrás passei por uma grande dificuldade e acabei no divã do analista. Esse processo foi importante para eu me repensar. Dali muitas coisas se abriram. Como dou aula de canto já há 28 anos no Coral da USP, o manejo com o aluno de canto começou a ser influenciado pela analista que eu não sabia que eu tinha em mim. Em várias situações com alunos de canto percebia que às vezes falava coisas que nem tinham uma abordagem técnica do ponto de vista musical, mas era possível notar um desenvolvimento incrível do cantor. Isto me estimulou e fui estudando e mergulhando neste universo, até que acabei no Instituto Sedes Sapientiae, fazendo a formação em psicanálise.

Nasce o Projeto Voz Própria

VG – Como nasceu o Projeto “Voz Própria”?
CJ – Tendo como base a psicanálise e a experiência de ser orientadora de voz do Coral da USP desde 1990, recebi um convite para fazer uma parceria com a SAP (Sistema de Administração Prisional) na Penitenciária Feminina da Capital (São Paulo) e desenvolver um trabalho dentro do Carandiru. A princípio o Projeto era para atender a “Materna” – uma instância da prisão em que as mulheres ficam por seis meses com seus bebês, muitos deles que nascem na prisão. Eu achei que começar pela “Materna” ia ser muito difícil para mim. Então, iniciei o trabalho com 30 mulheres que, como fiquei sabendo ali, vinham de todas as partes do mundo. Eram mulheres de muitas nacionalidades diferentes, que se inscreveram para o Projeto. Tinha uma russa, uma sueca, uma da Malásia, outra de Cuba outra dos Estados Unidos, muitas da África do Sul, de outros países da África e brasileiras de muitos cantos e tribos também, é claro. Enfim, o projeto começou a ser constituído em 2015 e até hoje já atendeu mais de 200 mulheres.

VG – Eu pude assistir uma apresentação in loco do Voz Própria lá no início. Fiquei muito emocionada, porque além do canto em si, que estava incrível, nós que estávamos ali para assistir pudemos perceber o poder da música na transformação do ser humano. Como foi para você entrar naquele ambiente, um ambiente ao qual você não estava acostumada, e mexer com tantos aspectos? Você comentou comigo sobre muitas histórias, como de mulheres que não falavam com as outras – e às vezes nem com elas mesmas— ou seja, não mais ouviam suas próprias vozes. Elas falavam línguas diferentes. Era a prisão do silêncio. Acredito que as pessoas que estão aqui fora – e que nunca entraram lá – não fazem ideia disso.
CJ – Um benefício inicial da minha entrada no sistema prisional foi vencer o meu próprio preconceito. Sim, existe um preconceito e ele é sistematicamente criado e reforçado. Há a crença de que a pessoa que está dentro da cadeia é a “retentora de todo o mal da sociedade”. Então, neste mundo imaginário, a sociedade fica protegida por que o “mal” está na cadeia. Só que não. A pessoa comete um delito (foi condenada por isso), mas ela continua sendo um ser humano que sonha, que tem seus desejos, que tem um lado construtivo e que pode e deve ser acolhido de alguma maneira. Aproveito para fazer uma pequena provocação: é verdade, encontrei pessoas na cadeia que eram perversas (se é disso que a maioria tem medo), mas também encontro com “perversos” em lugares e instituições muito respeitadas. Aliás, eu tenho muito menos medo de entrar na cadeia e encontrar com essas mulheres do que andar, por exemplo, pela Universidade ou outras instituições supostamente livres e democráticas… (risos)

VG – Você tinha me contado que algumas delas nem falar, falavam… Outras apresentavam casos difíceis de lidar. Como tem sido lidar com tudo isso?
CJ – Eu tive um caso de uma russa que não se comunicava, primeiramente em função da língua. Ela não falava nem inglês nem português. A relação foi estabelecida pela musicalidade da fala, do som do russo e dela cantando para mim. A estrutura do Projeto me deu – e continua oferecendo – várias oportunidades. Eu tenho encontros individuais com elas. Algumas delas estão, muitas vezes, passando por momentos de crise, mais revoltadas ou mais deprimidas. Nesses casos, eu tiro a pessoa do grupo e faço um atendimento individualizado. Mas, em geral, este é um trabalho em grupo, que envolve corpo, dança, experiência teatral e, principalmente, a Roda de Cantoria. Uma roda em que elas vão cantando, se conectando. Uma roda que se torna um passeio. É como se a gente pudesse sonhar por meio da música.

VG – A Roda de Cantoria é emocionante. E tem um papel transformador no Projeto, não é mesmo? Pelo que você me contou, algumas – sozinhas ou em grupos – não se comunicavam ou estavam em pé de guerra e promoviam um combate entre elas. E com a experiência da roda puderam estar todas juntas.
CJ – Na verdade, há momentos mais tensos, como há em qualquer relação. Quando tem duas pessoas já vem encrenca. Um sujeito sozinho já é bem complexo, juntando dois aí… a Babel já começa (risos). Este caso que você está relembrando era entre uma mulher da Letônia e outra da Rússia. A da Letônia falava russo e inglês. Mas, as duas não se falavam porque havia uma guerra – não entre elas, mas entre os países delas. Ou seja, a Babel começa não porque as pessoas não falam especificamente a mesma língua, o mesmo código linguístico. A Babel começa, a guerra se dá na impossibilidade de ouvir o outro.

Mais que falar ou cantar: ouvir o outro

VG – Esse é o ponto. Quando ela passa a ter “Voz Própria” significa também que consegue ouvir o outro, certo? Acho que esse foi um dos grandes resultados dessa primeira etapa do trabalho, não foi?
CJ – Acredito que um dos pontos altos e mais interessantes do Projeto Voz Própria está especificamente no fato dele valorizar a escuta – a escuta do outro. A escuta é possível quando a gente baixa um pouco a ansiedade e a vontade de falar. Para mim tem sido um exercício, porque eu sou falante. E escutar a mulher, a pessoa, o nome, a angústia, a raiva, o ódio, o desespero… faz com que a pessoa ganhe voz. O único jeito de dar voz à pessoa é escutando…

VG – E agora, como o Projeto evoluiu?
CJ – Agora, eu até fico um pouco preocupada porque hoje é muito mais tranquila para mim a entrada na cadeia. Eu me pergunto: “será que estou anestesiada, que me acostumei?” Fico me perguntando até que ponto isso é bom… Mas, por outro lado, o fato de eu ficar um pouco mais tranquila dentro da cadeia me possibilita dar outros passos no sentido de estruturar uma intervenção numa casa de detenção, pela via da música. Quanto mais serena eu fico, mais eu posso pensar e de fato criar coisas para que o projeto se desenvolva. A Penitenciária Feminina da Capital é considerada uma penitenciária modelo (se é que dá pra se dizer que uma cadeia é modelo de algo….) e ela é. Tanto que abre esse tipo de espaço. Por exemplo, o chef Alex Atala fez um projeto de culinária e gastronomia ali e formou cerca de 300 mulheres como auxiliares de cozinha. Ou seja, é uma cadeia que abre espaço para esse tipo de iniciativa.

Cale-se! A violência do silêncio

VG – A pauta do momento é falar do empoderamento da mulher e um dos grandes empecilhos para o crescimento dela está na violência de gênero. Quando se toca na questão da violência contra a mulher, acredito que uma das grandes violências – além da violência física, com números e dados assustadores – é a violência que impõe o silêncio à mulher. Ou seja, está no fato dela não ter voz, dela não conseguir se colocar. Nesta experiência você pôde ver, de forma nua e crua, como se dá essa violência. Como você conseguiu, por meio deste trabalho, que estas mulheres readquirissem a “Voz Própria”
CJ
– Sim, eu vivenciei tudo isso. Uma das minhas hipóteses, e que muitas vezes nas conversas e na lida com elas aparece, é justamente esse massacre gigante, cruel e silencioso. Há um massacre total dos direitos, quando você coloca uma pessoa encarcerada, tira a roupa dela, quando ela vira um número, perde o contato com tudo… enfim, qual seria o objetivo disso? Impor essa punição, essa penitência, torna a pessoa melhor? Resolve o problema? Eu não vou entrar muito nessa questão, porque tenho minha visão pessoal – acho ineficiente esse método que é comumente usado para punir a pessoa. Uma de minhas reflexões é: “Se ela faz alguma coisa errada porque ela não pensa, então ela deveria ser exercitada no pensar. E não em parar de pensar”. Quando você simplesmente coloca a pessoa encarcerada e não dá os mecanismos, como a terapia e algum outro estímulo para que ela possa desenvolver sua capacidade de pensar, não está, a meu ver, resolvendo o problema. Na conversa com elas eu falo do aparelho psíquico, eu trago um pouco do meu conhecimento de psicanálise, para que elas entendam o que eu estou fazendo, o que eu estou pensando. São formas de mostrar, nem que um pouco, qual o rumo para onde estamos indo ou querendo ir. As nossas conversas são, principalmente, para que a pessoa possa reconhecer que algo dela está escondido, desconhecido. É uma reflexão para que ela possa perceber que algo de violento dentro dela também fez com que ela fosse parar numa cadeia. E ao refletir sobre isso possa mudar sua forma de pensar e agir para evitar o ciclo que eventualmente a traria para lá novamente.

Uma briga interna

VG – Então, essa violência “interna” é o principal alvo a ser trabalhado? É claro que ela está lá em função de toda uma situação violenta externa: a maioria delas vem de uma condição precária econômica e social e muitas foram parar lá porque participaram de episódios em que foram manipuladas, usadas. Mas, de toda forma, a grande violência interna, individual, dela com ela mesma, tem que ser trabalhada para que ela possa ser capaz de enfrentar essa violência que está do lado de fora e a afeta.
CJ – É isso. E não é fácil. Todos nós temos esses lados, esses “diabinhos”, esses demônios internos que meio que jogam contra. A gente tenta construir e, ao mesmo tempo, tem um lado nosso que nos destrói. Ou seja, neste projeto a reflexão é sobre como a gente pode ajudar a deixar essas mulheres mais conscientes desses mecanismos, mais atentas, para impedir que a violência volte a acontecer, nas mais diferentes formas. Porque muitas ficam nesse ciclo mortífero – entram na cadeia, saem da cadeia, entram na cadeia, saem da cadeia e assim sucessivamente – e não conseguem escapar deste roteiro perverso. É o ciclo do desconhecido. É algo que ela faz, pensa e sente que é desconhecido dela. Enquanto ela não tomar conhecimento do processo ela vai ficar presa e repetindo o ciclo, até aprender. Aí é que entra o pensamento, o alerta: “Olha o que você está fazendo com você!”

VG – Enfim, apesar do resultado final serem lindas vozes que aprenderam a cantar juntas, se comunicar de maneiras inesperadas e belas, o Projeto vai muito além. Ele ajuda a abrir portas para que elas escapem desse lugar interno, na maioria das vezes, sem saída. E elas criaram laços de afeto muito grandes com você, por você ter aberto esse caminho para elas, não?
CJ – Como essas mulheres ficam, na sua grande maioria, abandonadas, quando tem alguém que vai até elas, a relação é de muito amor. O ódio vem também. Porque são os dois lados da moeda. Tudo vem à tona: o amor, o ódio, enfim, elas inteiras. E, assim, o trabalho vai sendo feito. Às vezes uma situação mostra como as coisas são… Vou contar uma história que ilustra isso: certa vez, uma detenta disse para mim – e para quem quisesse ouvir – que naquele dia ela ia matar o carcereiro. Ela estava muito irada, com muita raiva, talvez com toda razão. Aí, o que fizemos? Começamos a cantar, todas juntas, para tratar aquele ódio. Em tom de brincadeira, fiz a seguinte pergunta para o grupo: “que música vocês dariam para que ela transforme este estado, este sentimento?” A coisa foi indo… uma começou a cantar, depois outra, outra e mais outras. Quando eu vi, todas estavam cantando.

VG – O ódio saiu do centro da discussão e foi substituído por sons que harmonizaram e acalmaram os corações?
CJ – Sim, como nesse exemplo, o que é produzido ali? A tentativa é de usar aquilo que elas trazem, o estado, os sentimentos, as angústias que elas manifestam e transformar isso em música.

VG – Um processo fantástico, transformador. Conte mais, por favor…
CJ – Às vezes a música é um heavy metal, um rap, um louvor que elas gostam de cantar. Sim, porque não sei se você sabe, mas tem remissão de pena para as que participam de cultos religiosos. Isso faz com que muitas entendam que fazer/cantar o louvor é uma coisa boa. Tudo isso aparece na Roda de Cantoria. Mas, neste estágio, o que mais importa é que elas fiquem bastante à vontade.. livres para cantar, para falar, para chorar, também.

Novos caminhos, guiados pela voz

VG – E o projeto teve desdobramentos, certo? Conte-nos como foi…
CJ – No final de 2015 a produtora Maria Fanchin, a Tuca, fez um videoclipe sobre o trabalho, que acabou sendo o embrião para um curta metragem que está pronto.

VG – Nós vamos apresentar o clipe e o curta aqui, no Vera Bellezza, assim que estiver disponível. E agora como está o Projeto “Voz Própria”? Para onde ele caminhou?
CJ – Eu estou sempre me sentindo em fase de elaboração. Estou no quarto ano. É pouco tempo para dar conta do volume das experiências que tivemos com essas mulheres. O legal é que para esse curta metragem foram gravadas 80 horas de todo o processo, da lida, o que é importante, inclusive, para poder refletir sobre tudo isso. O Projeto hoje conta com 30 mulheres lá dentro participando e eu me sinto muito mais tranquila para conduzi-lo, tenho mais ferramentas, mais experiência. Mas sempre é uma surpresa. A gente nunca sabe o que vai acontecer. A cadeia é um ambiente complexo, que tem suas leis próprias. Existem as leis das presas, as leis do grupo em si. Eu digo que continuo ainda em processo de elaboração. Eu brinco que estou no quarto ano de cadeia, mas ainda estou aprendendo e pensando muita coisa sobre tudo isso.

“Mulheres Livres” e seus desafios

VG – Conte como nasceu o Projeto Mulheres Livres. Esse novo projeto surge agora como continuidade depois que elas saem da prisão?
CJ – Ele nasceu da demanda das mulheres que participaram do Projeto Voz Própria, das egressas que já estão em liberdade, e que me procuraram no Coral da USP. Para elas foi criado um projeto especial que se chama Mulheres Livres que está em pleno andamento, mas ainda em elaboração. Este é um Projeto que está sendo muito importante para recuperar, ou melhor, para facilitar a ressocialização dessas mulheres. Foi um desdobramento muito interessante e se tornou um braço do Projeto Voz Própria.
Mulheres Livres surge para dar um estímulo para essas mulheres que saem, após cumprir as penas, sem nenhuma perspectiva, sem nenhum suporte, em especial as estrangeiras, dando a possibilidade para que elas tenham alguém com quem se encontrem e sigam adiante. Elas podem ir até a USP, cantar, juntar forças. E literalmente é isso que elas fazem. Elas se juntam. As mulheres que eram do projeto, saem (da cadeia), se procuram, muitas moram juntas e querem fazer algo de bom com a experiência que tiveram… é bem interessante.

 VG – Na prática, Mulheres Livres abre caminhos para essas mulheres? Ou seja, além de oferecer possibilidade de trabalho, o Projeto também traz à tona muitos aspectos que afetam a vida dessas estrangeiras – a maioria invisíveis ou mal vistas – aqui no Brasil? Depois de passarem pela prisão e, ao serem soltas, como elas enfrentam essa realidade
CJ – A saída do cárcere é bastante dramática. Eu vejo como um verdadeiro massacre. Como elas mesmas relatam: “liberdade coisa nenhuma”. Tenho que concordar. Quem vai dar emprego ou uma chance para uma egressa do sistema prisional? Se as pessoas que tem título, não cometeram nenhum delito estão tendo dificuldade de trabalhar, imagina uma pessoa que é egressa do sistema, que é estrangeira, que não tem família… é um verdadeiro massacre! Além da situação de trabalho, existe o problema de moradia, de convivência em uma sociedade diferente da delas. Enfim, é tudo muito precário… Então, essa nova possibilidade que o Projeto “Mulheres Livres” oferece, esse lugar das artes que torna possível uma série de coisas, aparece como uma luz. Estudamos, ensaiamos, nos preparamos para apresentações. Nos shows, passamos o chapéu, para que elas tenham alguma renda vinda de sua arte. O projeto inclui apresentações – projetos de artes para imigrantes – pensados e produzidos especialmente para que elas possam cantar e para que sejam remuneradas por isto. Já fizemos alguns shows, um deles na defensoria pública. Foi muito legal.

VG – Um dos casos que apareceu e ganhou destaque em função do Mulheres Livres, foi o caso da Nduduzo. Nos conte como aconteceu.
CJ – Nduduzo Godensia Dlamini, de 29 anos, está com a extradição decretada e vive um drama. É um contrassenso! Porque, se o objetivo de mandá-la para a prisão era a ressocialização, no caso dela isto aconteceu depois que ela foi solta. Ela criou laços, criou vínculos fortes com as pessoas. Agora, ela tem família, trabalho. Nduduzo está dando aulas de dança Zulu numa escola de artes, mas pela nossa lei ela não pode ficar aqui. A extradição chega com o subtexto: “agora você vai embora”. Daí surgiu a campanha “Nduduzo Tem Voz” (ou no Instagram: #ndududzotemvoz) para nos unirmos pela causa. Pois, caso a gente não consiga reverter a extradição, caso a defensoria pública, que está trabalhando para revogar esta decisão, não tenha sucesso, ela vai ter que voltar para a África do Sul, deixar sua família aqui, e só poderá voltar para o Brasil depois de 17 anos. O melhor é ouvirmos como ela mesma aprendeu a falar e se defender: www.facebook.com/NduduzoTemVoz/

VG – Nós podemos ajudar divulgando a Campanha?
CJ – Sim, é uma tentativa, os artistas tentam. O que surgiu deste movimento, deste processo, foi a conexão entre vários setores diferentes da USP, como o Coral da Universidade de São Paulo, a Escola de Psicologia, o setor de Direitos Humanos e de Artes Dramáticas, além dos próprios alunos universitários que estão engajados e se mobilizaram para divulgar a campanha e dar à Nduduzo e a todas essas mulheres o lugar que elas merecem, que é o lugar de artistas.

Mulheres fortes e belas

VG – Retomando o foco do nosso VERA BELLEZZA, que fala da beleza que vai além da estética pura e simples, eu pude ver nestes dois lindos projetos o desabrochar de mulheres muito, muito bonitas. Mulheres que se transformaram, reconquistaram a autoestima e conseguiram expressar toda a beleza que muitas nem imaginavam que tinham, em função de se descobrirem como lindos seres humanos. Você conseguiu ver isso também?
CJ – Vou contar uma particularidade: eu conheço você, Vera, há quase trinta anos. Nós compartilhamos a prática da filosofia Budista. O que eu aprendi nesses anos todos de Budismo é que todo ser humano tem um potencial infinito e milhões de possibilidades. Acredito que o que eu faço quando entro e ultrapasso aquelas portas de ferro da cadeia é tentar me conectar com o lado bonito meu para que de alguma forma eu possa despertar esse aspecto delas também. Isso realmente é fato. O que elas me mostram é sempre muito lindo. Eu costumo dizer que um dos momentos mais legais da semana é quando eu estou com elas, na sala de trabalho e nas Rodas de Cantoria.

VG – Realmente, eu tive a felicidade de conhecer a Carmina há tanto tempo e sempre me emociono em nossos encontros, porque ela é uma das pessoas mais bonitas que eu conheço. Quero agradecer muito sua participação conosco aqui no VERA BELLEZZA!!

O Vera Bellezza recomenda que você assista os vídeos com a entrevista completa, feitos com carinho por nossa equipe, com agradecimentos especiais ao nosso colaborador Jorge Marques, que captou tudo com seu enorme coração e sensibilidade:

Além disso, vejam também a matéria que recentemente foi publicada no G1 com mais um pouco sobre esse lindo trabalho:
••• Mulheres descobrem talento musical em coral na prisão e tentam refazer a vida fora dela por meio da música