Ilustração de Fernando Vianna
*Apresentação por Vera Golik*

Pronto! Acabou a primeira etapa dos feriados. Depois de dias de folia e de descanso, vibrei acompanhando pela TV o espírito jovem de um punhado de gente, de todas as idades, que desfilaram nas avenidas do país afora, usando a linguagem do Carnaval para arrancar as máscaras da hipocrisia e entoando denúncias nuas e cruas. Eu mesma, visitando a ilha da minha infância, com a missão de deixar pelas praias de lá as cinzas da querida tia que viveu por lá, encontrei um desses blocos animados, cheios de gente jovem, espalhando purpurina, que me abraçou e me puxou pra dançar. A dança da vida mesmo num momento de despedida. Um ciclo encantado que foi me levando a outros momentos mágicos, como na sala de casa, sentada no chão com a sobrinha-neta de dois anos, brincando de montar quebra-cabeças. Ou na tarde de chuva fina, ouvindo Chico, Gil e Milton em alto e bom som… cantando junto… Agora, parece que o ano vai começar de verdade. Nesse clima de nova partida compartilho e apresento para vocês, que estão curtindo o Vera Bellezza, um pouco do que vem da alma de uma amiga querida que tanto admiro e que tão bem expressa em palavras o que muitas de nós sentimos. Pelo menos, muito do que eu sinto. Com vocês e para vocês: um lindo texto de Junia Puglia. Ela que chega para mostrar que a vida é bela e estará com a gente nesse espaço especial. Já que agora eu também estou quase velha, mais jovem do que nunca. E pronta para o que der e vier!

Quase velha

*Por Júnia Puglia*

A velhice é um bicho arisco que me espreita em cada gesto, em cada movimento. Sou o produto desta época, na qual envelhecer é bastante proibido, pois ofende os corpos e mentes de uma geração que aspira à imortalidade e precisa acreditar nela, empurrada pela glorificação da juventude, pelo consumismo e pela indústria de cirurgias plásticas, cosméticos e suplementos nutricionais.

A convivência com os velhos – tenho horror aos eufemismos ridículos, que tentam tirar dos velhos o seu maior trunfo, que é o de ter vivido o suficiente para ser velhos – perdeu a naturalidade, como se, ao se tornar impossível adiar a constatação das fragilidades inerentes ao avanço do tempo, está-se frustrando uma expectativa fantasiosa de vigor físico e mental dos mais jovens, despreparados para acolher o envelhecimento, como estamos nós mesmo, os que nos aproximamos deste estágio da vida.

Prestes a fechar a sexta década, percebo o quanto de energia já ficou pelo caminho. Como no cansaço causado por uma viagem mais longa e no tempo necessário para me recuperar, na dificuldade para ver e decifrar letras e imagens miúdas, apesar dos óculos sempre atualizados, no esforço adicional para digerir a comida e na necessidade de me ajustar a horários e menus que não dificultem o sono, e até mesmo nos drinks alegremente compartilhados em horários que alguns anos atrás eram “de velhos”. Y otras cositas más.

Sim, há vantagens, exaustivamente listadas em textos de todo tipo, num esforço de consolo e bem-estar para quem se assusta com o passar do tempo. Estar sentada diante do computador na mesa de jantar, às dez e meia da manhã, e poder levantar a cabeça, olhar pela janela e apreciar o céu azul profundo e o lilás intenso das flores dos jacarandás da rua sob o sol forte, por exemplo, é algo que não se consegue fazer enquanto o juízo e o peito estão ocupados pelas tarefas e demandas emocionais da criação dos filhos, da carreira, do casamento, das pressões por ser e se manter competente e necessária.

O que eu quero agora é ver os meus netos, este primeiro que está a caminho e quantos mais vierem depois, se vierem, e também os adotados do coração, cheirá-los, apertá-los, mostrar-lhes as palavras e as mágicas que elas fazem, compartilhar com eles ao máximo o gosto de estar viva. Quero me encher de coisas bonitas. Quero cultivar, esticar e gastar a minha autonomia e consciência até o talo, se possível trocando e renovando afeto, e depois, havendo um depois, encarar as fraldas e o andador com a dignidade possível, de preferência sem muito sofrimento, porque este sim carece totalmente de sentido. E rir, rir muito, principalmente de mim mesma, das muitas tolices que trago aqui dentro e das tantas à minha volta.