Eu, no colo da minha mãe

Nas minhas mãos…

Por Vera Golik

Adoro contar histórias. Sou uma contadora de histórias, sem dúvida. Um dia desses, recebi um convite, um desafio, para falar de “Marcas da Vida”. A ideia, na verdade, era para mandar uma foto com a “principal marca da vida” – podia ser uma cicatriz, uma mancha de nascença, uma imagem qualquer – acompanhada de uma breve descrição sobre ela. “Breve descrição???” Não consigo. As imagens logo se transformam em emoções e aí surgem as letrinhas, e depois histórias…. resolvi falar de uma imagem que ficou fotografada em minha mente: a das minhas mãos.

Desde pequena eu tinha uma mania:

Meu tio Gil brincando com as minhas mãos

Apoiada no portão, fazendo pose, segurando a boneca

olhar para minhas mãos e ver os furinhos que se formavam quando eu esticava os dedinhos para trás. As mãos gordinhas, a pele lisinha, me presenteavam com a brincadeira de fazer aparecer e depois sumir os tais furinhos. Uma delícia! Acho que era mesmo. Não só mãe, pai, irmãos, mas os tios e amigos gostavam de brincar com as minhas mãos. As mãos sempre me ajudavam a contar histórias (tá vendo? Já contava histórias desde as priscas eras rsrsr). Ah as mãos… seguravam nos ombros da minha mãe, como que dizendo “dá pra descer daqui?” Me ajudavam a fazer pose no portão, segurando a boneca, a cintura… Levavam os livros da escola… agarravam as rédeas do cavalo, já que cavalgar nunca foi meu forte e eu morria de medo de cair dali… E as mãos foram me acompanhando, interpretando sentimentos, conduzindo sinfonias… me ajudando a tocar flauta, voar de planador e de asa delta, bater as teclas da boa e velha máquina de escrever…

Minhas mãos, hoje. Ainda tão falantes!

 

À medida que o tempo seguia, os furinhos já não passavam de lembrança boa de infância, não estavam mais lá, mas minhas mãos… que hoje trocaram os furinhos de bebê por veias aparentes, um boa dose de rugas e manchas de sol, continuam expressando meus sentimentos. Sim, são expressivas. Gosto delas assim como são. Elas seguem me ajudando a contar histórias.

 

 

 

Crédito fotos: arquivo pessoal