Jardins da minha infância

* Por Vera Golik *

Um cheiro, uma lembrança, um sentimento.
Da minha infância, na Ilha de Paquetá, lembro-me com saudade e um aperto gostoso no peito, do cheiro dos Flamboyants e da inconfundível Cica. Aquela planta tão comum também chamada de Sagu de Jardim ou Florada do Natal, com seu cheiro característico, forte, intenso… cheiro de chuva, de terra molhada… para mim, simplesmente o cheiro dos jardins da minha infância.

Buscando na memória, percebo que na meninice eu não tinha um cheiro preferido. A história da menina moleca que brincava de bola na rua passou longe dos frascos de perfumes assim como fiquei distante do espelho e do que me identificasse com uma menina. Minha irmã modelo, meu cabelo armado, tudo me fazia acreditar que essas ‘coisas de mocinha’ não tinham a menor importância. Mas tinham.

Adorava o cheiro do sol na pele, do banho, do talco e só. Fui crescendo e mesmo nos tempos dos bailinhos de garagem, na hora de me arrumar, no máximo emprestava algumas gotas de um frasco na penteadeira da minha mãe. Um cheiro sempre forte para o meu gosto. Mas, como quando usava os saltos altos da minha irmã, era um gesto que me dava ares de alguém mais velha, mais segura, mais dona do meu nariz. E eu não era.

Bem mais tarde, quando já gostava de me arrumar, me maquiar e me perfumar, um fã, daqueles que faria qualquer coisa para me impressionar, me deu de presente nada menos que Paris. Era a primeira vez que ganhava uma cidade em um frasco, um perfume especial, raro, que tinha tudo para me fazer sentir poderosa ao usá-lo. E eu me senti.

Hoje, tenho paixão declarada e explícita pelos perfumes. Não um, mas muitos deles. Aprendi que não há perfume excessivamente doce, cítrico ou forte demais. Imaginar o clima, jogar a echarpe, pedir para o companheiro fechar o zíper do vestido e acrescentar o toque final, a dose certa (na verdade, a mínima, aquela que mais eu do que qualquer pessoa pode sentir) mostra que realmente sou dona do meu nariz. Um nariz que guarda para sempre o cheiro da Ilha da infância, dos meus amores e até dos dissabores. Um nariz sempre aberto para a emoção sem fim de descobrir e me surpreender com os melhores cheiros do mundo. Agora, as paisagens são da mulher madura, pura poesia e magia à flor da pele.

Bem vindos os cheiros dos jardins da minha vida.