Foto de abertura: Dalva Sandes, atriz. Dalva foi além de seus próprios limites. E daí surgiu a perfeita imagem da superação que se tornou símbolo do Projeto De Peito Aberto.

De Peito Aberto – uma experiência humanista

Por Vera Golik

No Brasil e no mundo o Outubro Rosa é o mês da conscientização e da luta contra o câncer de mama. Em 2018 o nosso projeto De Peito Aberto, a autoestima da mulher com câncer de mama, uma abordagem humanista” completou doze anos de uma longa e emocionante jornada, que se mostra cada vez mais intensa, real e urgente. Uma jornada que segue viva e vai além do mês de Outubro – afinal o câncer de mama não acontece só nesse mês – e que se revela forte em preto e branco e em muitas cores.

Meu irmão Peter Golik recebe o carinho da minha irmã Andrea Lynch (na cama) e do seu filho, meu sobrinho, Daniel Golik com a noiva Cássia (atrás, em pé).

De Peito Aberto é um projeto meu e de meu marido que surgiu de uma intensa experiência pessoal, quando vivenciamos vários casos de câncer na família, todos ao mesmo tempo. Em 2000, eu estava trabalhando na redação de uma grande revista quando recebi a ligação do meu irmão, Peter: “Vera, eu estou com câncer!” Foi um choque, fiquei sem chão! Apenas dois dias depois, na mesma semana, minha irmã Andrea, que mora nos Estados Unidos, me liga e diz: “Vera, estou com câncer!” Como assim? Os dois ao mesmo tempo? O choque se multiplicou quando menos de um mês depois, minha mãe também recebeu o diagnóstico de câncer.

Minha mãe, Dagmar Golik, sendo beijada por mim e por minha irmã, em pleno tratamento.

Foi um verdadeiro tsunami em minha vida. Eu nunca tinha tido ninguém tão próximo a mim com câncer e, de repente, estávamos todos com câncer. Sim, eu não estava fisicamente com a doença, mas sentia como se estivesse, queria estar no lugar de cada um dos membros da minha família, vivendo as dores deles. Para mim, por mais informação que eu tivesse, como jornalista especializada na área de saúde, ainda existia um mito de que “se é câncer, é morte!” Um mar de emoções e a sensação de impotência tomaram conta de mim. Meu marido, o fotógrafo e sociólogo Hugo Lenzi, já tinha vivenciado vários casos de câncer na família dele e o apoio que ele me deu durante os seis anos de batalhas na família foi fundamental para me ajudar a lidar com tudo isso.

A gente conta que o momento mais difícil para nós dois foi contar para minha mãe – na época com 80 anos, iniciando uma série de quimioterapias, bastante abatida e debilitada – que o filho dela, meu irmão de 51 anos, não tinha resistido ao tratamento e faleceu. Naquele momento, ela desabou e nos disse o que uma mãe certamente diria: “Porque ele e não eu? Eu já estou velha, ele não viu nem os netos ainda”. Meu sobrinho tinha acabado de se casar. Em meio a abraços, soluços e lágrimas eu só consegui responder: “Agora, a gente chora, porque é triste mesmo! Vamos nos permitir sentir essa dor. Mas, nós estamos aqui, vivos: eu, você, sua outra filha, seu genro. Vamos colocar em prática o que a nossa filosofia de vida nos ensina que é a ‘transformação do veneno em remédio’. Vamos fazer cada momento de nossas vidas valer à pena. Aí, quem sabe, um dia tudo isso fará algum sentido. O importante é seguirmos em frente, juntos e usarmos tudo isso como uma oportunidade de crescimento”. E minha mãe chorou, nós choramos. E nos reerguemos. Minha mãe, Dagmar Golik, como uma linda e forte guerreira, enfrentou tudo de uma forma espetacular, exemplar, surpreendente.

Depois de vencer o câncer, três meses antes dela falecer, a imagem da nossa rainha que transformou “veneno em remédio”. (foto de Paschoal Rodriguez)

Além do desafio da doença ainda haviam as questões financeiras. Minha mãe e meu irmão não tinham plano de saúde. Foram muito bem atendidos na rede pública. Mas até conseguirem o tratamento travaram grandes lutas. Eu ia com ela às consultas e lembro que, às vezes, chegávamos às seis horas da manhã para pegar a ficha 432 de atendimento. Ela olhava para mim com um certo desânimo. Apenas por um segundo suspirava, mas em seguida dizia: “Que bom! Tem 431 pessoas para eu conversar” E assim encontrava forças para ajudar outras pessoas, compartilhando e ouvindo histórias de vida e de superação. Ela criou uma tal energia vital que conseguiu prolongar sua vida por mais três anos. E alguns meses antes de falecer serenamente, ela tinha o aspecto de uma rainha vencedora!

 

Nasce o Projeto “De Peito Aberto”

Alessandra Sandoval, pedagoga. Enfrentou muitas dificuldades, mas superou tudo com o amor e o apoio das filhas e da família.

Paralelamente, eu e Hugo, resolvemos transformar toda a nossa vivência em um Projeto inédito, que mostrasse esse mar de emoções que vive não apenas quem é diagnosticado com o câncer, mas também seus familiares e amigos. Na nossa jornada, percebemos que poderíamos unir nossos saberes – eu com meus dons de jornalista e escritora e ele com sua sensibilidade de um fotógrafo muito especial, que conseguiu traduzir tudo isso em belas e impactantes imagens – em um projeto único no mundo. Nascia, assim, o Projeto Sociocultural De Peito Aberto – a autoestima da mulher com câncer de mama, uma abordagem humanista | Fotos Hugo Lenzi – Textos Vera Golik. O projeto é composto por uma exposição fotográfica, palestras interativas, um livro, as redes sociais e demais ações que buscam sensibilizar, conscientizar e, principalmente, transmitir força e esperança para todas as pessoas que trilham a mesma jornada.

De Peito Aberto tem como foco central o câncer de mama – o de maior incidência entre as mulheres (são quase 60.000 casos diagnosticados todos os anos só no Brasil, segundo o INCA – Instituto Nacional do Câncer) e que afeta todos os símbolos da feminilidade, com a perda dos seios, dos cabelos, da fertilidade e da libido. E realça como a abordagem humanista pode transformar a maneira de lidar com a doença.

Marilena Garcia, foi vice-prefeita de Macaé. No momento da operação, com a garra de quem decide vencer, ela disse: “O teto branco desse hospital pode ser o teto da minha sepultura ou uma página em branco para eu reescrever a minha história. Eu vou reescrever a minha história!”

O Projeto que é fruto da batalha contra a doença revela muito do que fica escondido durante todo o enfrentamento da doença, como a falta de humanismo dominante no atendimento à saúde, que afeta tanto os pacientes, como os familiares e amigos durante todo o tratamento. A questão do abandono das mulheres pela maioria dos maridos. O apoio dos que se mostram antes de tudo humanos e a diferença que isso faz no resultado do tratamento. A quebra de paradigmas de quem ainda, até hoje, tem medo de pronunciar a palavra câncer e fala “aquela doença”. As crendices como a de quem acredita que “quem procura acha” e por isso não se cuida, não faz os exames para diagnosticar precocemente um nódulo, podendo assim aumentar exponencialmente as chances de cura. Cada fase do processo – a descoberta, o processo, o apoio e a superação – ganha um destaque especial e nelas são retratadas – nas imagens e nos depoimentos de mais de uma centena de mulheres do Brasil, Espanha e Estados Unidos, entre 18 e 70 anos, de diversas origens, etnias e classes sociais – as histórias e os sentimentos de tantas mulheres.

É um apelo para que os profissionais de saúde não enxerguem na paciente apenas a doença, mas o ser humano completo. E para que a paciente torne-se agente do seu processo de recuperação, com o apoio da família e dos amigos.

Maria Cristina Torres, funcionária pública. Cris venceu o câncer duas vezes e passou a fazer o que gostava: cantar e depois correr. Ganhou muitas medalhas como a Guerreira Vencedora na vida, o que ela é.

De Peito Aberto foi a única mostra convidada e exposta na ONU, em Nova York, no período da Assembleia Geral das Nações Unidas, em toda a história. Essa apresentação aconteceu em 2011, durante o Encontro Mundial de Alto Nível sobre Doenças Crônicas Não Transmissíveis e a 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas, quando eu me tornei Embaixadora Global para o Câncer no Brasil, designada pela American Cancer Society,, junto com outras companheiras, para representar a sociedade civil  para que pudéssemos encontrar as melhores formas de enfrentar esta doença, já considerada então pela OMS – Organização Mundial da Saúde, uma verdadeira epidemia mundial.

Desde 2006, a exposição De Peito Aberto vem circulando por todo Brasil, com exposições nas regiões Sul, Sudeste, Norte, Nordeste, Centro-Oeste, e foi vista por mais de oito milhões de visitantes. Mais de 40 milhões de pessoas foram impactadas pelas coberturas e notícias veiculadas na mídia – TV, rádio, mídia impressa e redes sociais. Aprendemos que devemos estar onde a população mais precisa, promover a humanização da medicina e buscar uma saúde de qualidade para todos. Para isto, sempre buscamos espaços de grande público, como centros culturais, estações de metrô, shopping centers; galerias, escolas e universidades públicas e privadas, Centros Médicos, Centros de Cidadania, Assembleias Legislativas, sedes de órgãos públicos e de entidades da sociedade civil por todo o país. Assim, o Projeto De Peito Aberto segue sua jornada pela dignidade da vida, levando força, coragem e esperança para milhares de pessoas em todo o Brasil e está sempre se renovando.

Agenda De Peito Aberto 2018

Em 2018, a agenda De Peito Aberto foi intensa. Veja algumas ações:

Exposição De Peito Aberto 2018 – no Hall da Claro-Net e no Palácio Tangará

Em parceria com a Campanha “Valorize Seu Tempo”, do Canal Lifetime TV, a Exposição Fotográfica foi apresentada tanto no Palácio Tangará, no Parque Burle Marx, em uma ação para todas as operadoras de TV a cabo, como no hall da Claro-Net, em São Paulo para seus 4.000 funcionários. Mais de 500 pessoas deixaram seus depoimentos emocionantes em nossos livros de registros.

Dessa parceria com a Lifetime Brasil, com produção da Brazuca Filmes, surgiu a série de cinco vídeos com os depoimentos sensíveis das Guerreiras De Peito Aberto, amplamente divulgados nas Redes Sociais. Assistam os vídeos:





Hugo Lenzi e eu, Vera Golik, em frente ao Coletivo Pink.

Também participamos da iniciativa “Coletivo Pink”, com patrocínio da Pfizer, que reuniu várias ONGs que trabalham pela causa em uma casa pink, no coração de São Paulo, na região da Avenida Paulista, que contou com uma programação diversa, reunindo muitas atividades durante todo o Outubro Rosa, incluindo a Exposição e a Palestra De Peito Aberto.

Além disso, participamos de muitas entrevistas, como para o programa “Hoje em Dia”, da TV Record e também no canal “Eu Vejo”, de Daiana Garbin, em que falamos de muitos desafios que as pessoas vivem durante o tratamento, das particularidades do projeto De Peito Aberto e pudemos representar a FEMAMA (Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama), destacando a Campanha #CompartilheSuaLuta e do novo aplicativo MAMAtch!, um App para conectar pessoas envolvidas com o câncer de mama. Curta aqui a entrevista:

Nossa Palestra Interativa De Peito Aberto também foi vista por mais de 500 pessoas, entre funcionários de escritório e operários de diversas empresas parceiras, como a marca de moda Ricardo Almeida, a marca de cosméticos Anna Pegova e a fabricante de equipamentos de segurança Danny.

Agora, o Projeto De Peito Aberto se prepara para uma nova jornada tanto pelo interior do Estado de São Paulo como para o Sul do país.

Conheça mais em:

DE PEITO ABERTO
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