Bendito Casamento – Histórias de um vestido de noiva

* Apresentação Por Vera Golik *

Começa aqui uma série de crônicas sobre o casamento e mais especificamente sobre a magia que envolve o tão desejado e mitificado vestido de noiva. Valkiria Iacocca, tem uma trajetória profissional pelo mundo das artes e é uma observadora incansável dos costumes mais triviais, prosaicos. Descreve de um jeito só seu como ela vê o mundo. Um mundo que dá milhares de voltas e parece voltar para os mesmos lugares, com personagens diferentes, em épocas distintas, mas como ela mesma diz: um roteiro que sem menos nem mais nos leva a repetir comportamentos iguais, Como nossos Pais…

Parte I – Como nossos pais

* Por Valkiria Iacocca *

Seis décadas de vida e mais algumas unidades me transformaram em uma observadora dos costumes humanos. Ainda muito pequena já gostava de analisar uns e outros e percebia que cada qual tinha uma maneira particular de agir ou executar uma determinada tarefa. Também observava que, num piscar de olhos, eu podia identificar quem tinha feito isto ou aquilo. Ao chegar em casa, por exemplo, eu sabia quem tinha arrumado a mesa para o almoço ou o jantar, se minha mãe ou minha nonna, e isso se repetia no dia a dia: observava aquele meu tio que adorava marcenaria e fabricava brinquedos para nós, a tia que sabia fazer como ninguém tortas na Páscoa e no Natal. Assim, desde que me lembro por gente, eu aprendi a acreditar nos costumes e nos talentos. Admiráveis.

No entanto, havia uma coisa, um evento, que, mesmo rotineiro aos olhos da maioria, despertava em mim uma reação diferente: era o ‘bendito casamento’. Eu ficava observando esse costume tão comum, tão antigo e, na minha adolescência, numa revolta típica de uma jovem dos anos 1960, não conseguia entender o que levava uma moça a ‘se montar’ com aquele vestido caro, que geralmente me parecia ridículo, para ser usado uma única vez na vida, para uma representação bastante teatral em que declarava amor eterno a um ‘cara’ que às vezes mal conhecia…

Essa imagem sempre me incomodou, mas não impediu que eu mesma tivesse o meu momento ‘casamento’. Para não cair em contradição criei justificativas, achei que tinha sido totalmente inovadora e rebelde, considerando o meu ‘casório’ único, uma data diferenciada, uma festa descontraída, etc… etc… etc… No fim, foi um casamento e com vestido de noiva e tudo.

Aquele espírito observador nunca me abandonou e assim, com a maturidade, consegui ter um olhar mais complacente com o tema ‘casamento’ e o decantado ‘vestido de noiva’.

Surgiu, portanto, essa vontade de juntar noivas e estudiosas de noivas para abordar o assunto. O fio condutor seria o tema da consagrada canção “Como Nossos Pais”, interpretada e eternizada por Elis Regina, que também poderia ser, por que não, “Como Nossas Avós” ou “Bisavós”… Afinal, quanto mais penso, mais chego à conclusão que o desejo continua o mesmo: formação da família, ter filhos, busca do amor e tudo que compõe um quadro de simplicidade total. Nem vou me incomodar em falar em século 21, em tecnologia, liberdade sexual, opção sexual e outras conquistas da humanidade.

Aí vem a resposta à minha curiosidade: ‘vestido de noiva’ é o símbolo total do desejo mais simplório do ser humano, na representação que exige tanto preparo, tantos gastos, tanto ensaio no âmago da história. Hoje, além do desejo do amor e da união, a família e a noiva acreditam que quanto mais bonita e rica for a festa, mais fácil será conquistar o sonho de serem “Como Nossos Pais”.